Celebra-se hoje o Dia Internacional do Enfermeiro, assinalando o nascimento de Florence Nightingale. O Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) definiu como tema para 2026 “Enfermeiros empoderados salvam vidas”. Pretende-se assinalar a centralidade dos enfermeiros na construção de sistemas de saúde mais focados nas pessoas, nas suas necessidades e no bem comum. O empoderamento dos enfermeiros é uma condição para garantir equidade no acesso à saúde, qualidade dos cuidados e respostas de saúde mais próximas.
Aos enfermeiros portugueses faltam condições de trabalho seguras, reconhecimento, autonomia profissional e oportunidades para exercerem as competências que detêm, de forma a garantir respostas mais eficazes às necessidades das pessoas, das famílias e das comunidades de quem cuidam.
Os enfermeiros são centrais na construção de sistemas de saúde mais justos e orientados para o bem comum. São, muitas vezes, o primeiro e, por vezes, o único ponto de contacto das pessoas com o sistema de saúde. O seu olhar abrangente permite identificar necessidades e adaptar intervenções, proporcionando respostas mais justas e inclusivas que traduzem, na prática, o direito a cuidados de saúde.
O enfermeiro vai ao encontro das pessoas valorizando-as, atende à sua singularidade, procurando na sua ação atuar com equidade e compaixão, ciente da sua responsabilidade moral nas decisões que toma. Ao promover a saúde, ao salvar vidas, ao cuidar da vida desde o início até ao fim, os enfermeiros não só promovem famílias e comunidades mais saudáveis e resilientes como constroem “sentido” com as pessoas de quem cuidam.
Num tempo de indiferença, de exclusão, de repúdio da diferença, do apagamento e do desrespeito pelo outro, os enfermeiros cuidam de todos, independentemente da sua nacionalidade, condição social, cultural ou religiosa. Cuidam dos mais frágeis, dos migrantes, dos idosos, dos feridos, dos doentes, das crianças, dos moribundos, e sustentam o silêncio, a dor e a angústia com reverência.
Cito José Tolentino de Mendonça: o cuidado a grande experiência humanizadora, o lugar do mundo onde mais aprendemos, o grande espaço de sabedoria autêntica. Sem a cultura do cuidado não haverá futuro e tudo representará sempre mais um beco sem saída. (Expresso,2021) Não podemos deixar de reconhecer que o cuidado é um ato profundamente humano e consegue transformar vidas e instituições.
A misericórdia, compaixão, solidariedade, esperança, respeito incondicional pela pessoa, competência técnico-científica e relacional, são valores que acompanham os enfermeiros e são pilares da sua ação. Não deixamos de lembrar aqui o exemplo de várias Ordens Religiosas de enfermeiras e enfermeiros, que privilegiavam no seu cuidado os mais vulneráveis, os mais pobres, os mais sós, os marginalizados, os migrantes, os moribundos, os abandonados, as pessoas deficientes, denunciando injustiças, favorecendo a integração, exigindo melhores condições para aqueles de quem cuidavam/cuidam, promovendo o direito à saúde como expressão concreta do bem. Concretizando enfim, a parábola do Bom Samaritano.
Num contexto de elevada pressão física e desgaste emocional, e muitas vezes organizacional, os enfermeiros precisam também de alimentar a sua resiliência e esperança, protegendo a sua dimensão espiritual.
Os sistemas de saúde não se sustentam apenas de tecnologias ou de inovações terapêuticas, mas de valores, e os enfermeiros, integrando técnica, evidência científica e serviço, testemunham que é possível todos os dias contribuir para o bem comum através do cuidado ético, que restaura a esperança, defendendo a dignidade humana e servindo a vida.
No atual contexto marcado pelas acentuadas desigualdades, pelo envelhecimento da população, pelo individualismo crescente, pelas fragilidades dos serviços de saúde, pela desinformação, migrações, guerras, crises económicas e despersonalização do sofrimento, empoderar os enfermeiros para a defesa dos valores da profissão e do cuidado é fundamental, pois é necessário, e urgente, contrariar a desumanização, promover a proximidade, a confiança e a responsabilidade mútua.
A neutralidade face à injustiça e ao avanço da despersonalização do outro mais frágil é incompatível com o cuidar, por isso acreditamos que os enfermeiros vão continuar empoderados na defesa da dignidade humana, da vida e da centralidade do cuidado como construtor de um mundo onde Deus se faz presente na bondade dos que cuidam.
Profª Doutora Enf. Ana Paula Gato
